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"Esse Deus que ele tá falando é o governo"

Heresia: som do Estupro Sem Malícia incendiou Jardim São Paulo
Um episódio que sempre conto - algumas pessoas inclusive já não o agüentam mais - é o dia em que estreou o Dark Fate, a banda em que toco. Faz tempo, muito tempo. Não havia celular nem internet. Era 1990. Acho que por volta de setembro.
Eu, Mohammed e Túlio Guioday formávamos a banda então. Fomos convidados pela galera do Necrópsia, nossos amigos da Várzea, para assistir a um show do Realidade Encoberta, grande banda de hardcore-crossover-metal do início dos anos 90. Nado, o vocalista que nos deixou há algum tempo, tinha a mania de convidar todos para ver se "abria um espaço", como ele gostava de dizer, para o undeground recifense pré-mangue. O show em questão era na Praça de Jardim São Paulo. Na verdade, era um evento da Igreja Católica, onde algumas bandas se apresentariam, ao ar livre.
Não sei quem organizou esse show, mas convidar uma banda chamada Estupro Sem Malícia para uma quermesse era, no mínimo, um desatino. Ainda mais quando o vocalista/baixista do grupo atendia pela alcunha de Satã-Deus. O nome do cidadão é Sérgio, irmão do baterista César Doido, a quem substituí anos depois no Cérbero. Na guitarra, Márcio, que tempos tempos tocou no Necrópsia.
Pois bem. O show ia rolando e as letras do Estupro Sem Malícia não poderiam ser chamadas de cristãs. Houve um momento crucial na apresentação. Satã-Deus, que parece que estava com o diabo no couro, resolveu fazer um discurso antes de apresentar a próxima música:
- Essa música vai para esse Deus filho-da-puta!!!!
Na hora, a comoção tomou conta do pessoal da organização, que deve ter se arrependido do pecado de convidar a trupe de Satã-Deus. O cara que fazia as vezes de mestre de cerimônias tomou o microfone de supetão e, incontinenti, rasgou as desculpas, quase chorando:
- Pessoal, pessoal...esse Deus que ele está falando é o governo, é o governo...
*******
Na seqüência, subimos nós, o Dark Fate, que havíamos resolvido mudar de nome na véspera. Antes, chamávamos Perpetual Grave. O mestre de cerimônias virou-se para Túlio e perguntou, na bucha:
- Qual o nome?
Túlio, que estava, como sempre, distraído, pensou que o cara, que tinha um cabelo igual ao de Oséas (lembram do ex-centroavante do Atlético-PR e do Palmeiras), havia perguntado o seu nome de batismo e respondeu:
- É Túlio.
- Com vocês, a banda Túlio!!!!!
O estrago já estava feito. De um lado, nós querendo avisar que o nome era Dark Fate. De outro, nossos amigos, embaixo do palco, que não sabiam da mudança, gritando "é Perpetual Grave, é Perpetual Grave"!
No fim das contas, nem o Necrópsia nem o Realidade Encoberta tocaram. Um amplificador queimou e impediu a apresentação de ambas as bandas.
P.S.:
Esse post vai pra Nado, um batalhador da cena underground recifense que fez história aqui e deve estar fazendo agora, onde quer que esteja. Valeu, Nado!
Escrito por Billfred às 19h23
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Após um período de entrevamento, este blog volta na tentativa de ser lido de novo por seus leitores fiéis.
Livros, brochuras e apostilas

Gênio? Eu, aos 4 anos, lendo o catálogo da Hermes
Derna de quando eu era pequeno, ando às voltas com os livros. Diziam as más línguas que eu era superdotado - aos 13 eu queria ser era bem-dotado, coisa que consegui após muito esforço e sessões de leituras educativas, tendo por arcabouço teórico exemplares de Fiesta, Rudolf e catálogos da Hermes. Sei que comecei a ler cedo, mas tão cedo que quando fiz 5 anos, meu pai me deu uma coleção de livros de filosofia - sobre a qual já versei aqui neste blog.
Aos 4 anos, eu era tipo aqueles pirralhos pentelhos aos quais você pergunta qual é a capital do Zimbábue e a resposta certa - segundo o Manuel de Redação -, é Harare. Cortesia de uma enciclopédia que eu lia nos intervalos entre uma leitura de Pascal e outra de Padre Vieira. (Deve ser por isso que tenho tanto abuso de filosofia) Perguntavam a moeda de não-sei-de-onde, e eu respondia na bucha. Não me consta que eu tenha errado, mas isso não quer dizer nada.
Lembro que lia muito Monteiro Lobato. Lia também uma coleção de um tal Vicente Guimarães e seu Vocô Felício - na verdade, um Sítio do Picapau Amarelo menos famoso. Depois, sob as ordens de Mamãe, passei para coisas mais densas como Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Machado de Assis. Confesso que era uma leitura meio maçante, mas fazer o quê? A sorte é que Mamãe também comprou uma coleção de García Marquez - salve Cem Anos de Solidão e Diário de um Náufrago.
Ganhei a fama de CDF. Era o mais novo da sala - não fiz a primeira série, pulando logo para a segunda. O que me rendeu muito aborrecimento, dentro e fora de casa. Dentro, com meu irmão mais velho, um notório perturbador que repetiu de série uma porrada de vezes e que não recebia muito feliz as pressões que faziam em casa. Fora, o fato de ser o pirralho me valeu muito cascudo.
Só depois de muito tempo, como cantaria Nasi, é que voltei a ler algo que prestasse. Aos 17, minha leitura predileta era a Rock Brigade e os fanzines de metal - quando entrevistei, via carta, o Korzus. Quando cheguei ao CAC, aí me vi ferrado: o povo falava de Sartre, Camus e Nietzche. E eu lendo os hilariantes comentário de Marco A. Fonseca na Rock Brigade.
Toda esta venta de cera para dizer que tô com uma porrada de livro para ler e não consigo. Do Evangelho de Judas a um Dostoyevsky que Silvinha me deu. Passando por Saramago (empréstimo de Ciara Carvalho), dois de Leonardo Boff (cedidos por dona Ângela), uma biografia de Mao, livros que tenho que ler por causa do trabalho. Ah, e a Rock Brigade. Chego lá ainda.
P.S.:
Meu avô fez 90 anos ontem, segunda-feira 9 de abril. Um batalhador por natureza, que nunca leu um livro e é muito mais gente do que muita gente que se diz gente por aí. Falô, Zé Mano!!!
Escrito por Billfred às 19h13
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Celebridades
É claro, elas estão aí, pro que der e vier. Quando você menos espera, aparece uma celebridade, brigando por uma lavagem de pára-brisas no sinal ou vendendo canetinhas 3 em 1 nos ônibus. Em certos locais, as celebridades já viraram praga. No Burburinho, por exemplo. Ou na Nox...
Minha relação com as celebridades sempre foi conflituosa. Quando eu era pirralho, peguei o autógrafo de todos os atletas da Seleção Brasileira...de futsal...Houve um jogo lá em Goiana, contra a Seleção Paraibana. Eu agarrei na preliminar e aproveitei pra pegar as assinaturas de Jackson, Cacá, Gera, Douglas e Beto. Depois, meu irmão mais velho disse que ia tomar conta dos autógrafos e nunca mais eu os vi. Acho que ele os vendeu.
Por falar em atletas, eu pedi o autógrafo de Ademir Muller, volante do Náutico no título de 89. É claro que eu estava bicado.
Mas eu não estava fora do meu normal quando encontrei Kuki no Shopping Recife. Estávamos eu, Silvinha e Belinha, quando, descendo um degrau da Praça de Alimentação, dou de cara com o atacante do Náutico, que no meio da semana tinha feito dois gols em não-sei-quem. Não me contive.
- Kuki, você é foda!!! Me dê um autógrafo.
- Como é seu nome?
- Wil,..., quer dizer, Júnior (claro que eu não ia explicar a Kuki como escrever meu nome)!
Prontamente, Kuki escreveu algo como "ao amigo Jr, Kuki".
Radiante, saio eu, quando Bellinha, com uma cara feia, me repreende.
- Pai, você falou dois palavrões!
- Não, filha. Falei só um e peço desculpas.
- O nome daquele homem é um palavrão também!!!
Mas legal mesmo foi quando acompanhei, junto com Mohammed, minha irmã Cremogema (a popular Bunda de Papa) e minhas primas, o cortejo do Dia do Frevo de 2001. A frevança já começou na Rua da Imperatriz, com direito a 4 litros de batida de limão. O percurso era até o Pátio de São Pedro. Quando chega lá, eu já estava dois degraus acima de Bira, de Páginas da Vida. Completamente chumbado, olhei do lado - já era noite - e vi Beth Carvalho. Sim, a sambista carioca, mangueirense. Me abracei com ela, a pulso, e soltei, na chincha:
- Beth Carvalho, eu zou zeu fã!!!!!
E, incontinenti, resolvi cantar uma música dela. E cantei Garoto Maroto....

Engano: Beth me confundiu com Siba
Para finalizar, outra experiência com músico. Sala de Reboco. Eu, Mohammed, Mamãe, minhas primas e cachaça. Quem tocava era o simpático Camarão, famoso por sua simplicidade e bom trato com os fãs - mais azedo do que chá de limão com alho. Eu parei de frente pro palco, completamente azuretado. Disse umas 10 vezes que era fã de Camarão. E ele se esquivando. Até que não houve escapatória nem mesmo saída: estendi a mão para apertar a mão santa e sagrada do sanfoneiro, que, a propósito, estava utilizando as duas mãos - as dele - para tocar alguma música de Luiz Gonzaga. Minha mão estendida continuou estendida até que, em um intervalo, Camarão não teve outra alternativa a não ser apertá-la. Deve ter durado um segundo. Depois, ele ainda limpou a mão - a dele - no fundo das calças - as dele. Quem manda ser famoso?
Escrito por Billfred às 12h35
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Como é mesmo o seu nome?
Quem me conhece -e também quem não me conhece - já me ouviu reclamar do meu nome. Que significa "pacífico, resoluto" e tem origem teutônica - alemã, pra ser menos cheio de frescuras. Aliada à variedade insana de maneiras como as pessoas me chamam, nos últimos tempos atentei para o fato de que na verdade eu tenho uma espécie de multiplicidade de personalidades, devidamente ligadas ao jeito como me chamam. Daí resolvi preparar um tratado sobre eu, mim e eu mesmo, de acordo com o modo como me chamam.

Personalidade múltipla é uma cachorrada só
Nome: WILFRED
Pronúncia: Uílfred
Área de abrangência: profissional, escolar, recifense
Histórico: Bem, esse é o jeito que me chamam aqui no Recife. Tudo começou quando, aos 12 anos, entrei na Escola Técnica. Na hora da chamada, o professor pronunciou Uílfred. E aí, desde 1986, quem me conheceu na ETFPE, no Especial, na UFPE, no Diario de Pernambuco e no Jornal do Commercio, me chama desse jeito. Silvinha me conheceu como Gadêlha, mas foi devidamente se adaptando a Uílfred - coisa que aprecio até hoje.
Personalidade: Como é um modo mais profissional, quando me chamam de Uílfred, tenho que assumir a postura de repórter. Portanto, sou um cara mais responsável (tem certeza?). Silvinha me chama desse jeito e quebra um pouco a sisudez, pois me sinto em casa. E querido.
Nome: WILFRED
Pronúncia: Vilfréd
Área de abrangência: profissional, escolar, goianense, greial
Histórico: Meu pai tem o mesmo nome que eu. Aliás, eu tenho o mesmo nome dele. Em Goiana, minha terra natal, as pessoas que não me conheceram no seio familiar me chamam de Vilfréd - herança de Wilfred Sênior. Chamam-me assim as pessoas que conheci no Colégio da Sagrada Família, no jornal A Província e na Prefeitura de Goiana, quando fui secretário. Por conta de alguns amigos recifenses, também me chamam deste jeito por aqui. Mas é bem menos gente.
Personalidade: Quem me chama de Vilfréd tem uma certo distanciamento - à exceção de amigos como Podreira, Lapa e outros. Assim, quando ouço alguém me chamar desse jeito, lembro de Goiana.
Nome: JÚNIOR
Pronúncia: Júnio
Área de abrangência: familiar, goianense
Histórico: Chamo-me oficialmente Wilfred de Albuquerque Gadêlha Júnior. Ser Júnior é ser o filho de alguém. Portanto, sou chamado dessa maneira por pai, mãe, irmãos, tios, tias, primos, primas, avô. E minha filha também me chama de Júnior. O ex-prefeito de Goiana também me chamava de Júnior - inclusive em reuniões de secretariado, fato que me deixava um tanto constrangido.
Personalidade: Júnior é sempre aquele pirralho superdotado, que aprendeu a ler com 4 anos e blá-blá-blá. Obviamente, no seio familiar, ninguém ousa abrir a boca pra me chamar de Wilfred - quaisquer das pronúncias.
Nome: GADÊLHA
Pronúncia: a mesma
Área de abrangência: profissional, alguns amigos, recifense
Histórico: Se alguém me chama de Gadêlha, tem duas origens: ou achou meu nome difícil e optou por chamar o mais fácil ou me conheceu na campanha de Joaquim Francisco. Na maioria das vezes, tentando evitar certos constrangimentos, declino meu nome como Gadêlha, tentando facilitar as coisas. Na campanha de JF, o marqueteiro Ricardo Carvalho me apresentou ao resto da equipe como Gadêlha. Aí, um monte de gente que conheci naquela época me chama desse jeito. Dia desses, entrevistei o minsitro Celso Amorim, que perguntou se Gadêlha era meu nome de guerra. Disse ao chanceler que não, mas que meu nome era muito estranho. Ele perguntou qual era e se saiu com essa: "Pelo menos é um nome que existe".
Personalidade: Gadêlha é sisudo, responsável e correto.
Nome: JUQUINHA
Pronúncia: a mesma
Área de abrangência: ETFPE, heavy metal, recifense
Histórico: Aos 12 anos, no meio de um antro de almas, tive que tomar uma decisão: ou ser eternamente massacrado pelas gréias ou me juntar aos porcos e comer farelo. Então, perturbando um bocado, ganhei o apelido de Juquinha, o eterno moleque das piadas. Quando comecei a andar com a raça do metal, Fred, amigo dos caras do Cérbero, me reconheceu. Aí, voltei a ser chamado de Juquinha pela galera haedbanger. Isso se estendeu ao JC, onde pessoas como Novela e Serginho também me chamam assim.
Personalidade: Juquinha é um eterno perturbador. Dizem que na maioria do tempo, eu sou Juquinha.
Nome: BOCA
Pronúncia: bôca
Área de abrangência: Várzea e CDU
Histórico: Meu irmão Mohammed tinha o costume de falar cuspindo. O pessoal da Várzea, onde eu praticamente acampava no início dos anos 90, o apelidou de Boca de Chuveiro. Por ser irmão dele, ganhei a alcunha Boca de Chaveiro, posteriormente reduzida a simplesmente Boca.
Personalidade: Boca é um Juquinha mais perturbador, se isso é possível.
No final das contas, eu sou eu e Nicuri é o Diabo!
Escrito por Billfred às 15h16
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WILL2KILL RE-RE-RELOADED
Da série Eu já li isso em algum lugar
Muita gente - PIB e Luiz Joaquim, principalmente - fez referências à imagem que eu usei há umas duas semanas em meu perfil no Orkut. Era a do super-herói Bat-Fino. Em homenagem a eles - PIB, Luiz e Batfino - republico texto originalmente postado no velho www.willtokill.blogspot.com, em 2 de agosto de 2004.
Toons
Desde que eu me entendo por gente (é mermo, véi?), que eu sou fissurado em desenho animado. Reza a lenda que eu aprendi a ler aos três anos, vendo Vila Sésamo (é, eu sou veínho). Não sei, só sei que gosto pra caramba. Até hoje ainda vejo. Xodó da Vovó, Polícia Desmontada, Esquilo Sem Grilo, Rabujento, Esquadrilha Abutre, Corrida Maluca, Corrida Espacial, O Fantasminha Legal (puta nome bichal da porra!), Might-Thor, Os Herculóides (esse é du caralho: Igo, Glup, Glip, Thundro, Zok, Zandor, Tara e seu filho Dorno), Os Flinstones, Os Jetsons, Scooby-doo, Zé Colméia, Tartaruga Touché, Wally Gator, Maguila O Gorila, Manda-Chuva (fuderoso), O Urso do Cabelo Duro (uhuhuh!), Pepe Legal, Formiga Atômica, Jambo e Ruivão, Butch Cassidy and Sundance Kid (esse desenho era muito massa e quase ninguém lembra. Eram agentes secretos, que fingiam ser uma banda de rock), Tutubarão, Josie e as Gatinhas, Os Almôndegas, Os Muzzarelas, Dartagnam, Dom Quixote, Dom Pixote, Patrulha Estelar, He-Man, Thundercats, Caverna do Dragão (que seqüÊncia fuderosa!), Pantera Cor-de-Rosa, Mr. Magoo, Johnny Quest, Pirata do Espaço, Galaxy Rangers, Transformers, Comandos em Ação, Banana Split, Família Trololó, Ursinhos Gummy, Os Wurzzerls (é assim?), Sala da Justiça, Batman, Homem-Aranha, ufa!, é desenho pra caralho e ainda tem outro monte.
Pérola do Post "Nhinf, nhinf, não tem mais respeito", de Tu-tubarão
Escrito por Billfred às 19h43
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Formigas e lixo
Às voltas com a volta do Dark Fate, lembro com muita saudade daquele bailinho. Quer dizer, bailinho um cipa! Chamar os shows totalmente underground de bailinho é totalmente sem-noção. Tenho pelo menos umas 30 histórias daquela época – os saudosos, como diria meu antepassado, o comendador Themystocles de Guimaraens, anos 90. Para não encher o saco, vou contar apenas umas 29...
Uma antológica foi uma viagem que fizemos eu e Mohammed a João Pessoa, como roadies do Necropsia, banda de thrash-core-noise, como eles se autointitularam a si próprios. Meu irmão foi com os caras. Eu fui de carona. Peguei um bigú com um cara de Goiana, que tempos depois foi saxofonista do Trophas, outra banda que eu toquei, o quebra-metrônomos Johnny Araújo.
Chegando à aprazível capital paraibana, fui para a Rodoviária, onde estavam os membros da banda – o vocalista Cara-de-Cavalo, o batera Sory Soriano, o baixista Carlão e o guitarrista Leozinho. Mohammed já estava lá. Esperávamos pelo pessoal do Medicine Death, grande banda local, amiga dos caras do Necropsia.
Quando os caras chegaram, vimos que não dava para seis pessoas irem no carro. “Os roadies vão na mala”, disseram. Eu e Mohammed nos aboletamos no porta-malas do Chevette que foi nos buscar e rumamos para o bairro dos Bancários.
Lá chegando, fomos presenciar o ensaio do Medicine. Entrando na casa de Wilhelm e Williard Jansen (estes são os nomes dos irmãos fundadores do grupo, logo apelidados de Willikit e Willikat). Um cidadão de cabelo preso apareceu – era Williard. Nos cumprimentou e soltou o cabelo. Meu velho!!! Pensei numa moita!!!
Chegou então a hora de ir para o local do show. Era na sede de algum sindicato, no centro. Perto dali, morava a avó de Carlão. Fomos lá eu e ele e comemos os quitutes que a vovó havia preparado para o netinho, enquanto o resto da raça podre teve que se contentar com sebosos hot dogs em frente ao local da apresentação.
Entramos no recinto e vimos que havia apenas umas cem pessoas. Era um bom público. Notamos também que havia apenas duas mulheres em meio àquela multidão de cabeludos fedorentos – nós inclusos na conta. Uma, tava abraçada com um cara. A outra era sapa.

Platéia animal: muita instigação em João Pessoa
Eram quatro bandas. A primeira, não me lembro. A segunda foi o Rotten Flies, que mandou um bom crossover. Depois, foi a vez dos anfitriões. A performance do Medicine Death era foda, bem diferente das bandas pregadas ao chão do Recife. No fim do show dos caras, alguém da platéia tomou o microfone e deu um berro tão miserento que vomitou o pedestal inteiro. Eu e Mohammed, os roadies, nos entreolhamos.
- Vai limpar!
- Eu, não, vai tu!
- Vai tu!
- Vai tu!
Resultado: nem eu nem ele fomos. Sobrou para o pobre Cara-de-Cavalo. O show do Necropsia rolou em alterações. Finda a apresentação, fomos beber!!!
Juntamo-nos eu, Mohammed, Carlão, Leozinho, Williard e o ex-batera do Medicine Death, Jurubeba – que pelo nome já dá pra sentir o quanto o cara bebia... Em um barzinho bem fuleiro, ficamos tomando cachaça, ao som de Slayer e Destruction.
Resolvemos voltar para a casa da família Jansen. Já era manhã. Pulamos o muro e ficamos com vergonha de chamar por alguém. A saída foi dormir na grama do jardim. As formigas começaram a aperriar. Saí e deitei na área de serviço. Aí foi a vez das moscas. Eu não tinha notado que havia me deitado ao lado do lixo.
Escrito por Billfred às 14h32
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Curtindo a vida adoidado
Hoje passou na Sessão da Tarde o clássico filme Ferris Bueller’s Day Off. Em português claro, Curtindo a vida adoidado. É um dos mais legais de todos os tempos, reprisado a torto e a direito na Globo. Dirigido por John Hughes, um dos diretores mais popcorn de Hollywood, o filme não ficou datado. Continua sendo diversão garantida. Matthew Broderick no auge, o impagável Alan Ruck como o medroso Cameron e Mia Sara, que tinha acabado de fazer A Lenda, formam o trio protagonistas. Ainda participam ótimos coadjuvantes como Jeffrey Jones (o rei de Amadeus), Jennifer Grey (a estrela de Dirty Dancing) e Charlie Sheen em uma ponta engraçadíssima. É daqueles filmes que ficam no córtex de uma geração. Tem pelo menos cinco cenas clássicas. Aí vão elas:
1. Ferris cantando Twist and shout

Essa cena é o clímax do filme. Em uma parada morgada tipicamente americana, o gazeador de aulas interpretado por Broderick alopra em uma versão genial do clássico popularizado pelos Beatles.
2. O diretor Ed Rooney se ferrando no fim
O fim do filme, com os créditos passando, é massa. Depois de ser mordido, ferido, ferrado e ridicularizado durante todos os 102 minutos da película, o diretor volta à escola. No ônibus escolar, acontecem cenas impagáveis. A música Oh Yeah, de um tal de Yello, aumenta o clima de chacota. E tem uma estudante de óculos fundos de garrafa que oferece um chiclete ao diretor...genial!
3. A Ferrari do pai de Cameron
O carro do pai do amigo de Ferris é um personagem à parte. Dos garagistas que alopram na direção à queda do bólido em uma mata nos fundos da casa de Cameron. Fuderoso.
4. O pai de Sloane pega a filha na escola
Cameron liga pra escola, fingindo ser o pai da namorada de Ferris. O diretor não acredita na conversa e desanca o suposto pai, achando que é o gazeteiro. Na outra linha, Ferris liga pra escola. O mal-entendido é clássico. E quando Ferris – que, disfarçado, fica a cara do Inspetor Buginganga, interpretado por Broderick anos depois – chega para pegar a aluna e dá-lhe um beijo na boca, não tem como não cair na gargalhada.
5. Cameron em estado de choque na piscina
Depois de acabar com a Ferrari do pai, o amigo de Ferris fica em estado de choque. Se joga na piscina e dá a impressão que vai se afogar. Ferris e Sloane tentam ajudá-lo. É quando ele começa a rir – se aproveitou da “catatonia” para brechar a namorada do amigo.
Escrito por Billfred às 17h43
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Continuação do post Ecologia Capilar 1
Ecologia capilar 2
Minha mãe reclamava do meu cabelo o dia todo. Meu pai também. Me davam dinheiro para eu cortar o cabelo e eu bebia o corte. Eu dizia que tivessem paciência que o cabelo iria ficar bonito. O tempo passava e nada do cabelo ficar bonito. Uma vez, vínhamos pela rua e passou um rasta, com um cabelo que parecia um balaio. A minha genitora mesmo arriou: “Lá vai Júnior”!
Nessa época, eu tomava um banho rapidíssimo de manhã e ia pro Especial, onde estudava, com o cabelo preso. Acho que por isso nenhuma menina “direita” chegava perto. Me chamavam de Lobão. Em frente à escola, tinha um espinheiro. Conversávamos debaixo dele em uma ocasião eu, Cabeça, Valderrama, Carbonized Eggs e outros que eu não me lembro. De repente, alguém disparou: “Olha uma aranha seca no cabelo de Wilfred”. Em minha defesa, digo que a aranha estava na árvore.

Eu, aos 20
Minha irmã sugeriu que eu desse um coquetel ou coisa que o valha. Aceitei. Ela, toda animada, pegou um pote de um produto que tinha cheiro de frutas. Me sentou numa cadeira e começou a aplicar o creme. Depois, ela foi no quarto dela e voltou com uma touca.
- Como é? Uma touca?
- É para ficar mais bonito.
- Tá bom.
Com a bendita touca na cabeça, minha irmã olhava para mim e caía na gargalhada. Voltou ao quarto e veio com outro troço para botar em cima da touca.
- Que porra é essa?
- É uma touca térmica.
- De jeito nenhum. Sou macho e headbanger.
Fiquei parecendo a deusa egípcia Nefertite. Meia hora depois, com a cabeça em chamas, ela desligou. Nada de diferente no cabelo.
- Veja amanhã!!!
No outro dia, meu cabelo parecia o de Malu Mader, o de Perla ou ou de Marcelo Demo. Quando eu mexia o pescoço, as madeixas se moviam tal e qual uma propaganda de xampu. Na escola, perguntaram o que eu tinha feito.
- Nada, só lavei...
O triste fim desse fuá foi um pouco antes do vestibular 93. Saiu um boato de que o Napalm Death viria tocar no Recife. E que os caras estavam todos carecas. Foi a senha pra galera resolver raspar a cabeça. Eu não queria. Fazia uns 3 anos que eu deixava o cabelo crescer.
Só que o pessoal começou a pegar os resistentes à carequice a pulso. Correram atrás de mim numa quarta-feira e eu escapei. Faltei à aula na quinta. Mas na sexta não deu. Eu apenas pedi para não cortarem à força.
No Voyage vermelho de Guedes (cujo nome verdadeiro é Rodrigo de Souza Pedrosa. Até hoje não sei por que chamavam-no de Guedes), fomos até o Cordeiro, onde havia um barbeiro que a galera já conhecia. No salão, tinha um sanfoneiro, que tocava enquanto o cara cortava o cabelo do cliente. O cidadão pegou a tesoura e, sem dó, cortou logo o rabo-de-cavalo. Em um minuto, o que eu tinha cultivado em 3 anos, virou pó. Careca da silva eu fiquei. Dava para sentir todos os pingos de água batendo no ex-couro cabeludo quando eu tomava banho.
Escrito por Billfred às 15h21
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Ecologia capilar 1
Sou um ecologista. De tempos em tempos deixo a mata crescer. A floresta, que fique bem claro, são os meus cabelos. Como bom headbanger, tenho preferência por eles compridos. Viadagens à parte, nunca cuidei deles com apreço. Na verdade, a moita, a maçaroca, o fuá, era um pouco anti-social, digamos.
Sempre alternei momentos com cabelo grande. Depois enchia o saco e debelava o matagal. Minha fama de cabeludo começa aos 2 anos. Se você vir uma foto minha dessa época, vai me achar a cara de um poodle. Minha mãe resolveu deixar o meu cabelo crescer – e nem promessa era. Mas, quando estava para completar 3 anos, ela resolveu me levar em dona Carmelita, a cabeleireira das estrelas nos anos 1970, em Goiana. Ela passou a faca e fiquei de cabelos curtos.

Eu, aos 2 anos
Depois, aos 11, resolvi deixar as madeixas longas mais uma vez. Era 1984 e, no Colégio da Sagrada Família, inventaram um show de talentos. Pelo tamanho de minha juba, me convidaram para imitar Pepeu Gomes, em voga com seu mantra “Ser um homem feminino, não fere meu lado masculino”. De guitarra de plástico na mão, encarnei o marido da então Baby Consuelo. As conseqüências disso só fui saber quase 20 anos depois, quando fui alvo de uma montagem que denegria meu lado masculino – e o feminino também.
No fim da década de 80, eu já brabo e metido às pregas de Odete como headbanger, resolvi, mais uma vez, incentivar a agricultura capilar. Confesso que não era muito chegado a um banho, quanto mais lavar os cabelos decentemente. No máximo, botava uma ampola de vitamina A no xampu – que durava décadas. (continua em outro post, pois essa porra aqui deu pau...)
Escrito por Billfred às 15h14
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WILL2KILL RE-PUBLISHED
Toda segunda-feira será reservada aos grandes, melhores e fuderosos momentos do Will2Kill (tanto na fase zip.net quanto na blogspot.com). Quando achar necessário - quase sempre - farei algumas alterações. Abro a série com este post, sobre teorias conspiratórias.
F.L.A.T.O.
Ou
Fraternidade dos Leais Adoradores do Tenebroso Odor
Acabei de ler o Código Da Vinci e, apesar de todas as críticas dos intelectuais, eu gostei. Tanto é que li em um dia apenas. Mas, o que me deixou mais impressionado foram as histórias das conspirações. E, aí, inspirado (1º trocadilho) nessas ordens, acabo de fuçar nos anais (2º trocadilho) da Biblioteca da Venerável Irmandade dos Chupadores de Vulva e descobri que, nos idos do século 16, existiu no Brasil essa ordem chamada FLATO - Fraternidade dos Leais Adoradores do Tenebroso Odor.
Conhecidos à época como os cheira-peido, os irmãos desta organização se notabilizaram, através dos séculos, por sua bravura indômita. Donos de um faro (3º trocadilho) incomensurável para a polêmica, entraram para a história suas refregas com os chupa-tái, como ficaram conhecidos os integrantes da Venerável Irmandade rival.
É interessante explicar que diversas figuras notáveis também foram cheira-peido. É o caso do ex-presidente do Brasil, Nilo Peçanha. Reparem no daguerreótipo: Peçanha (que dizem, tinha um peido peçonhento - 4º Trocadilho) acaba de flatular e, por culpa de sua irascividade duodenal, não está em condições de sentar.

Outros ilustres homens também integraram a FLATO: Noel Rosa (dizem que ele balançava a roseira como ninguém - 5º), Dom João 6º (um cara que comia frango assado como ele só podia liberar gases como um celerado), Bethoveen (que por ser surdo, não ouvia os peidos sinfônicos que produzia). Mas o que Dan Brown não sabia - ou fez questão de esconder, com medo de que quanto mais mexesse, o negócio fedesse - é da origem divina da Flato. Mais: a controvertida irmandade fui criada durante a Santa Ceia!!!!

Mohammed, que apesar do nome, não é muculmano, já havia formulado essa tese há décadas. Todas as feições, todos os gestuais, todas as expressões retratadas por Da Vinci em A Santa Ceia corroboram para a tese de que o que aconteceu naquela Quinta-Feira há 1973anos foi nada mais do que um peido. Podem ver: os apóstolos se acusam-se uns aos outros mutuamente da autoria do vento. Uns, querendo as graças do Salvador, assumem a culpa.
- Fui eu, Senhor!
- Não. Fui eu, infiel!!!
Bem, quem peidou, não se sabe até hoje - alguns apontam para Judas, mas o cara já tinha ganho 30 moedas...Outros dizem que foi Pedro, cujo nome não siginifica pedra, como os Evangelistas nos fizeram acreditar durante séculos, mas sim...PEIDO!!! Mas o próprio futuro papa negou três vezes ter sido ele o autor do flato. No final das contas, quem levou a culpa foi o Messias, que foi crucificado por um crime que não cometeu. Segundo as leis judaicas da época, peidar à mesa era pior do que cobiçar a mulher do próximo. O resto, é história.
Hoje, a Flato tem comunidades espalhadas pelo mundo inteiro. Uma delas, fica em Itaquitinga - corruptela para Pedra que Fede - Ita = Pedra; Quitinga - Catinga. E daí vocês podem perceber a similaridade com o nome Pedro = Peido...Pasmem!!! Outro centro de cheira-peidice é a cidade baiana de Itapetinga - é quase o mesmo nome, notaram?
Escrito por Billfred às 17h14
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SONHOS POSSÍVEIS
OU NÃO CONTRARIEM UM MORIBUNDO
Meu brother de milhares de anos Mandrey me intimou a participar do projeto Sonhos Possíveis. Como ele está convalescente, é melhor não contrariar - dizem os doutores.
Não sei se encarnei o espírito da coisa, mas vou elencar os meus sonhos possíveis, em ordem aleatória.
* Ser feliz
Escrito por Billfred às 12h52
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De como um réptil ardiloso
acabou com a paz no Paraíso
Foto: Rusga Matos

Ui, que loucura
Para quem leu ontem a história de Gioconda, a tartaruga desaparecida que comia charque, é bom se preparar para outro causo abordando estes simpáticos répteis da ordem dos quelônios. Desta vez, é a história dos jabutis Carlota, Carlito e Carminha.
No quintal da casa de minha mãe, na Rua da Baixinha (não me perguntem quem é a baixinha que dá nome à rua que eu não sei), tem um pé de acerola. À sombra de tão frondosa árvore, vivia um casal de jabutis. Não sei se eles eram casados, mas viviam juntos. Carlota e Carlito. Eram jabutis de tamanho médio. Acho que eram jovens, deviam ter uns 40 anos cada. Carlota, a fêmea, era maior. Carlito era bem menor do que a companheira. Viviam numa boa, comendo banana, mamão e melancia. Como Adão e Eva no Jardim do Éden.
Eis que minha mãe resolve povoar ainda mais o Paraíso. Não satisfeita com o casal, minha genitora comprou – que o Ibama não nos ouça – outro quelônio. Menorzinha, mais clarinha, boa praça, foi chamado de Carminha.
Carminha adentrou a vida do casal como um furacão. Mais jovem – devia ter uns 20 anos – era chegada a arroubos juvenis. Bebia, fumava e saía à noite para dançar. Como era pequena – do tamanho de uma quenga de coco seco - , sumia pelos recônditos do quintal, dando um aperreio extra às empregadas, que tinham que cortar um dobrado para achar a rebelde.
Carlito, que não era besta nem nada, começou a dar em cima de Carminha. Nova no pedaço, irresistível, a tartaruguinha era um encanto. Era demais para o jovem Carlito, cujo relacionamento com Carlota andava meio devagar. Na primeira oportunidade, ele montou na couraça da nova amiguinha. Apesar de moderna, Carminha não era besta. E se saiu, que não queria encrenca com a dona da casa.
Mas Carlito continuou “cercando lourenço”. Insistia, insistia, mas não conseguia êxito. A paz no Paraíso estava ameaçada.
Um dia, a empregada jogou fora uma bacia de água de lavagem de roupa. Não sei o que é que Carlito tinha na cabeça, mas acho que tentou o suicídio, bebendo o detergente. Ficou imprestável. Não se mexia. E fazia uns barulhos, uns roncos, semelhantes ao que fazia quando estava em conjunção carnal com a sua esposa. Minha mãe levou ao médico, que desenganou o animal. Não havia nada a fazer a não ser esperar. Morreria logo. Teria, no máximo, uns 15 anos de vida.
Engembrado, Carlito virou um vegetal. Um alvo fácil para os ataques de...Carminha!!! A jovem quelônia começou a montar diariamente na carapaça do ex-quase amante. Fazia uns barulhinhos sensuais, virava os olhinhos e depois de saciada, ia embora, espalhar para os amigos. Era que Carminha não era fêmea. Era um macho, na verdade, um adolescente punheteiro que fugia do pederasta Carlito.
O destino deste triângulo amoroso foi trágico. Carlito morreu. Carminha sumiu mundo afora, saciada de seu desejo homoquelônico. Carlota? Carlota ficou viúva e foi doada pela minha mãe. O Éden nunca mais foi o mesmo.
Escrito por Billfred às 10h16
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Touché!!!
Foto: Feto Bigueirôa

Gioconda, a sumida
Lá em casa nunca foi uma Arca de Noé. Minha avó, braba que só uma caninana, não deixava minha mãe criar nenhum bicho quando era menina. E a moral da coroa se manteve depois. Mas, como bons meninos que eu e Mohammed éramos – muito bons... – a gente sempre arranjava um jeito de trazer um vira-lata pra casa. Não durava um dia. A gente tinha que jogar o bicho fora.
Mas, exceções à regra sempre as há. Quando morávamos no aprazível Conjunto Praia do Janga - quase vizinhos de Sapo e Pedro Moura -, por trás do nosso prédio havia uma espécie de areal, com um açude/lagoa/barreiro, chamado Morixaba. Um dia, voltando de uma sessão de chutar-pra-agarrar, encontramos uma pequena tartaruga, em uma poça de lama. Braba que só a minha avó, o pequeno quelônio ciscou que só, mas não resisitiu à captura.
Levamos o réptil pra casa. Convencemos a minha mãe de que deveríamos criá-la, afinal de contas a danada não faria as necessidades pelos cantos do apê, um argumento irresistível, ainda mais porque minha grandmother estava em Goiana. Compramos um aquário, arrumamos umas plantas aquáticas e botamos a tartaruga lá.
A bicha ficava nadando pra lá e pra cá e aí então nos lembramos de duas coisas: comida e um nome pra safada. Quanto à comida, a gente botava alface, pão e o caralho a quatro, mas a quelônia não comia nada. Saudade de casa? Da mãe? Dos irmãos? Sei lá. Mohammed teve uma brilhante idéia: pegou um pedaço de charque, picotou e jogou no aquário. Não é que o pequeno réptil adorou?
Resolvido isso, passamos à nova fase: batizar o bicho. Tínhamos um problema, já que não sabíamos se o novo hóspede era macho ou fêmea. Não levamos isso em consideração, e sugerimos todos nomes femininos. Minha mãe, democrática, resolveu fazer um sorteio. Botamos os nomes em papeizinhos e sorteamos. Eu fiquei torcendo para o meu ser escolhido: Astrogilda. Mohammed botou Bebe-Gala ou algo do gênero. Minha irmã lascou um Fofinha. E minha mãe mandou Gioconda, que era o nome de uma personagem de Heloísa Mafalda em Hipertensão. Quem ganhou foi minha mãe. E Gioconda começou a fazer parte da nossa vida.
Só que menino não mantém o interesse por muito tempo. Logo logo eu e Mohammed voltamos a nossa atenção para umas fitas do Rush e do Black Sabbath e os catálogos da Hermes da minha mãe e esquecemos Gioconda. Minha mãe ficava fula, porque não alimentávamos a bicha nem limpávamos o aquário. Depois de muito esporro, resolvemos limpar o habitat da nossa amiga.
Peguei Gioconda e tirei do aquário. Botei-a no chão, enquanto fui com Mohammed ao banheiro lavar a sua casa. Lavamos, deixamos o aquário nos trinques. Quando voltamos pro quarto, cadê a porra da tartaruga? Sumiu. Escafedeu-se. Viramos o pequeno apê de cabeça pra baixo e nada. Fudeu. Mamãe ia ficar arretada.
Que nada. Minha mãe nem ligou. Pra falar a verdade, nem a gente. Estávamos de saco cheio de cortar charque para a tartaruga, que comia melhor que a gente. Demos de ombros.
Um ano depois, inventaram de fazer uma faxina lá em casa. E chamaram Mohammed e eu pra ajudar. A contra-gosto, fomos lá. Minha irmã passou a vassoura por debaixo do guarda-roupa da gente e achou uma pedra. Uma pedra? Isso, cheia de poeira por cima. Quando fomos observar a tal pedra, vimos que era na verdade a tartaruga desaparecida!!! Pegamos o velho aquário, enchemos de água e jogamos o bicho lá. E não é que a safada, inerte até então, começou a nadar, como se nada tivesse acontecido?
Só que a minha mãe deu um ultimato. “Devolvam essa porra pro lugar de onde veio!” Devolvemos. E acho que Gioconda hoje deve ser uma mãe de família. Ou virou sopa.
Escrito por Billfred às 12h43
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No mundo animal, exeste muita putaria
Marcos Marcos

Bruno não ia com a minha cara
É certo que o Criador povoou o mundo, em sua gênese, com as mais diversas espécies animais. É certo também que o Criador errou a mão em alguns bichos. Ou ficou confuso ou terceirizou o serviço. Criaturas como o ornitorrinco, o rinoceronte e o gato são notadamente lapsos da criação. O Homem inventou ainda de domesticar alguns animais, como o cavalo, o boi e Rodolfo, ex-Raimundos.
Eu sempre gostei de bicho no lugar dele. Ou Dois Irmãos ou a mata. Que fiquem pra lá. Só que o buraco é mais embaixo. Eu tive que conviver com alguns animais de pelo, de pena e de casco. Não foi uma experiência das mais exitosas.
A começar por um papagaio que a minha mãe inventou de criar. Okey, okey, o Ibama e congêneres proíbem isso, mas o louro já morreu e o crime, se há um, prescreveu.
Quando o psitacídeo chegou ao número 118 da Avenida Nunes Machado, a popular Rua da Baixinha, em Goiana, parecia um zumbi. Não tinha uma pena, não abria o olho, nem sequer falava um palavrão pra fazer remédio. Entramos então em uma luta feroz para batizar a ave. Não, não levamos o danado para Padre Hélio abençoar e molhar a cabeça com água benta. Eu, minha mãe, minha irmã e meu irmão Mohammed sugerimos uma porrada de nome.
Abre parêntese. Eu acho que bicho, se é que temos que tê-lo, tem que ter nome escroto. Principalmente se for papagaio. Eu contribuí com epírtetos pomposos, ao estilo Diógenes, Quintino, Benjamim. Mohammed veio com uns safados, do tipo Cabeça-de-Pomba, Chupa-Tái e outros do gênero. Minha mãe veio com umas sugestões similares à minha. E, enquanto não decidíamos, minha irmã ia chamando a ave de Bruno. Demoramos pra decidir e, quando demos fé, o psitacídeo verde-amarelo já tava atendendo por Bruno.
Pois Bruno, como bom papagaio, era muito chato. Ele ficava no corredor de casa, num poleiro de alumínio. Sujava a casa toda. Voava gritando. Minha mãe e meu avô Zé do Carmo (ele é a cara do ceramista e não do ex-jogador) eram quem pegavam o bicho. Estendiam o dedo indicador na direção e Bruno subia, todo desajeitado. Quando eu ou Mohammed passávamos, ele tentava nos bicar. Sempre. Botamos o apelido dele de Velociraptor, porque o bicho era rápido na tentativa de bicar.
Um certo dia, ou melhor, madrugada, vinha eu de algumas bicadas – a da cachaça, entenda-se. No corredor, eu batia numa parede e na outra, cheio de cana. Quando fui passando perto do papagaio, o bicho se manifestou e tentou me atacar. Bati com o ombro no puleiro e Bruno voou. Caiu no chão. Vale salientar que minha mãe criava duas gatas – Agatha e Amélia, que viviam espreitando o papagaio, doidas que ele caísse no chão.
As gatas se aproximaram. Eu, embriagado de sonhos e Dreher, as afastei, mas, em meio ao meu porre, lembrei que ele tinha que voltar para o puleiro. Não tinha ninguém em casa. Era eu que tinha que pegá-lo. Estendi o indicador e o filho de uma arara me deu uma bicada que o sangue verteu. Esguichou. Gritei uns 30 palavrões diferentes. Tive que descobrir um outro estratagema para colocá-lo no lugar.
Como não queria dar meu dedo ao bico afiado de Bruno, inventei de pegar um cabo de vassoura. O filho de uma andaia gritou tanto, mas gritou tanto que os vizinhos ouviram e bateram na porta de casa, pensando em uma carnificina. Alguém, que não lembro quem foi – por conta da dor no dedo e de meu avançado estado etílico – botou o filho de uma cracatoa no seu devido lugar.
Não me lembro bem, mas Bruno bateu as botas há uns cinco ou seis anos. Parece que um gato das redondezas pintou e bordou com ele. Não sei. Só sei que, desde aquele episódio no corredor da morte, nem conto nem quero ouvir piada de papagaio.
P.S.:
A primeira palavra que o papagaio aprendeu foi o meu nome. Claro que ele não aprendei a dizer "Wilfred". Foi Júnior, como me chamam em casa de minha mãe.
Escrito por Billfred às 17h25
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Re-recomeço
Foto: Pico Chorto

Nietzche - Superman sucks!!! Sou mais Batman.
Antes de mais nada, uma pausa pra explicar que estou de volta. Não, não fui abduzido, nem seqüestrado por coelhinhas da Playboy. Estava – estou ainda, na Vera – atolado de trampo até o pescoço. Mas você não tem nada a ver com isso. E, após esse preâmbulo, aprecie com moderação o texto abaixo.
Nunca fui lá muito chegado em filosofia. Meus contatos com os mestres nunca foram além de um muxoxo. Platão, Sócrates, Nietzche, Sartre e esses caras todos nunca estiveram no meu index de autores prediletos.
Quando entrei na faculdade, circa 1993, me emputecia com os colegas de sala citando esse povo todo. Me sentia mais por fora do que torcedor do Santa Cruz, eleitor de Mendoncinha e gente que tem Plutão como planeta regente. No meio da conversa, se estivéssemos falando sobre rock, alguém citava Camus e aí eu me fudia.
Resolvi ser cabeça. Resolvi ler alguma coisa pra não ficar posando de inguinorante. Aí, peguei o famoso Assim falou Zaratrustra. Não passei da segunda página.
Talvez seja porque, quando eu tinha 5 anos e nem sabia o que era uma bronha, meu pai me deu uma coleção de livros –aprendi a ler com 4 – de clássicos da literatura universal. Tinha de Bernard Shaw a Pascal, passando por Camões, Padre Vieira, Espinoza e Schoppenhauer. Esses livros me foram muito úteis, por volta de 2002. Vendi-os todos, cada um a cinco paus, em um sebo lá na Corredor do Bispo.
Outra vez peguei um livro de um amigo que é meio hare. Introdução à Filosofia Védica. Não entendi bulhufas e até hoje não consigo pronunciar o nome lá do livro Baghhahhadaddaha Vitaffada. Sei lá. Acho que tinha que ter lido o Introdução à Introdução à Filosofia Védica.
Resultado: minha filosofia de vida é baseada em observações e chavões. Pinço uma coisa ali, outra aqui. Pára-choques de caminhão, ditados populares e frases de músicas. Carlos Vândalo, Vladimir Korg e Falcão, não necessariamente nessa ordem.
Escrito por Billfred às 16h38
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