"Esse Deus que ele tá falando é o governo"

Heresia: som do Estupro Sem Malícia incendiou Jardim São Paulo
Um episódio que sempre conto - algumas pessoas inclusive já não o agüentam mais - é o dia em que estreou o Dark Fate, a banda em que toco. Faz tempo, muito tempo. Não havia celular nem internet. Era 1990. Acho que por volta de setembro.
Eu, Mohammed e Túlio Guioday formávamos a banda então. Fomos convidados pela galera do Necrópsia, nossos amigos da Várzea, para assistir a um show do Realidade Encoberta, grande banda de hardcore-crossover-metal do início dos anos 90. Nado, o vocalista que nos deixou há algum tempo, tinha a mania de convidar todos para ver se "abria um espaço", como ele gostava de dizer, para o undeground recifense pré-mangue. O show em questão era na Praça de Jardim São Paulo. Na verdade, era um evento da Igreja Católica, onde algumas bandas se apresentariam, ao ar livre.
Não sei quem organizou esse show, mas convidar uma banda chamada Estupro Sem Malícia para uma quermesse era, no mínimo, um desatino. Ainda mais quando o vocalista/baixista do grupo atendia pela alcunha de Satã-Deus. O nome do cidadão é Sérgio, irmão do baterista César Doido, a quem substituí anos depois no Cérbero. Na guitarra, Márcio, que tempos tempos tocou no Necrópsia.
Pois bem. O show ia rolando e as letras do Estupro Sem Malícia não poderiam ser chamadas de cristãs. Houve um momento crucial na apresentação. Satã-Deus, que parece que estava com o diabo no couro, resolveu fazer um discurso antes de apresentar a próxima música:
- Essa música vai para esse Deus filho-da-puta!!!!
Na hora, a comoção tomou conta do pessoal da organização, que deve ter se arrependido do pecado de convidar a trupe de Satã-Deus. O cara que fazia as vezes de mestre de cerimônias tomou o microfone de supetão e, incontinenti, rasgou as desculpas, quase chorando:
- Pessoal, pessoal...esse Deus que ele está falando é o governo, é o governo...
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Na seqüência, subimos nós, o Dark Fate, que havíamos resolvido mudar de nome na véspera. Antes, chamávamos Perpetual Grave. O mestre de cerimônias virou-se para Túlio e perguntou, na bucha:
- Qual o nome?
Túlio, que estava, como sempre, distraído, pensou que o cara, que tinha um cabelo igual ao de Oséas (lembram do ex-centroavante do Atlético-PR e do Palmeiras), havia perguntado o seu nome de batismo e respondeu:
- É Túlio.
- Com vocês, a banda Túlio!!!!!
O estrago já estava feito. De um lado, nós querendo avisar que o nome era Dark Fate. De outro, nossos amigos, embaixo do palco, que não sabiam da mudança, gritando "é Perpetual Grave, é Perpetual Grave"!
No fim das contas, nem o Necrópsia nem o Realidade Encoberta tocaram. Um amplificador queimou e impediu a apresentação de ambas as bandas.
P.S.:
Esse post vai pra Nado, um batalhador da cena underground recifense que fez história aqui e deve estar fazendo agora, onde quer que esteja. Valeu, Nado!